Estruturas governamentais realmente podem causar impacto - rápido e positivo?

Atualizado: 16 de Mai de 2019

Alex M. Ribeiro Jr. | Abril de 2019 | 4 minutos de leitura

[...] Ao final da ligação, Seema havia se comprometido a contribuir com a transformação da Educação de um estado do tamanho do Peru.


Grande parte da sociedade enxerga as estruturas governamentais como arcaicas e conservadoras.


E talvez sejam, em certos pontos.


Mas uma das missões da indiana Seema Bansal é mostrar que estruturas como estas podem causar grande impacto, rápido e positivo, em inúmeras esferas sociais - inclusive na Educação.


Bansal é diretora no respeitado Boston Group Consulting (BCG) e, desde 2000, vem trabalhando incansavelmente em projetos financeiros e de telecomunicações.


Hoje, ela lidera as ações de impacto social promovidas pelo BCG na Índia e atua em variadas áreas, tais como Educação, Segurança Alimentar, Nutrição e Governança, em parceria com agências estatais.





A Educação na Índia: "já tentei de tudo, nada funciona"


Logo no início de uma palestra ocorrida em 2016, a executiva indiana disse: quero contestar a ideia de que grandes estruturas governamentais são burocráticas demais para causar grandes mudanças.


Para isso, ela conta uma história em que um governo, não apesar resolveu trilhar o caminho da mudança, como também apresentou ótimos resultados.


Há mais de 1 milhão de escolas públicas em toda a Índia. E 50% de seus alunos, quando chegam aos 11 anos, se encontram tão atrasados em termos de aprendizado, que são consideradas “irrecuperáveis” dentro do processo de Educação.


Quando chegam entre 13 e 14 anos, eles mesmos se o consideram; e abandonam a escola.


Uma grande evidência da ineficiência das escolas públicas indianas é o fato de 40% dos pais optarem por colocar os filhos em escolas particulares. Nos Estados Unidos, país cujo cidadãos possuem poder aquisitivo exponencialmente maior, este número cai para 10%.




Foi neste contexto que, em 2013, Seema Bansal recebeu uma ligação da Secretária da Educação do governo indiano à época:


“Sou a titular desta secretaria há dois anos. Já tentei de tudo, e nada funciona.” - disse.


Ao final da ligação, Seema havia se comprometido a contribuir com a transformação da Educação de um estado do tamanho do Peru. Haryana possui mais de 15 mil escolas públicas, que contam com cerca de 100 mil professores para atender mais de 2 milhões de crianças.


Uma velha conhecida - a escassez de recursos


Ao começar o projeto, o seguinte objetivo foi traçado: 80% das crianças devem alcançar o nível de escolaridade compatível com a sua faixa etária, até 2020.


Uma vez traçado o objetivo e entendido os inúmeros problemas que tornavam o cenário tão caótico, o grupo liderado pela consultora do BCG se voltou à busca por soluções. E foi em pequenas organizações, como ONGs e fundações, que eles encontraram inspiração.


Projetos incríveis estavam sendo executados ao redor do país e do mundo; mas todos em uma escala que se limitava a 50, 100 ou 500 escolas. E, obviamente, a falta de escalabilidade dos projetos estava em uma restrição muito conhecida por project managers: a escassez de recursos.


O desafio foi, então, encontrar uma solução para dar escala a estes incríveis projetos; aplicá-los, eficientemente, em todas as 15 mil escolas do estado de Haryana.


E, bom, eles conseguiram.





"A carta da (des) esperança"


Quando se depararam com o problema, não sabiam como exatamente iriam resolvê-lo; mas sabiam que a resposta estava na tecnologia.


Também sabiam que, assim como ONGs, as escolas públicas de Haryana não tinham recursos para investir em tecnologia. Então, perceberam algo que tornou toda a mudança possível: os professores tinham smartphones; e constantemente utilizavam plataformas como SMS, Facebook e WhatsApp.


Um grande exemplo, dentre a grande amostra de processos burocráticos que engessavam e atrapalhavam o Sistema de Educação Indiano, é o que ficou conhecido como a “Carta da Esperança”.


A secretaria escrevia uma carta e enviava para o próximo nível, que eram as subsecretarias. Esperava-se que todos os funcionários deste departamento a lessem, e que passassem para o próximo nível: as superintendências de Ensino - das quais se esperava o mesmo.


Chegando, então, aos diretores das 15 mil escolas, que também deveriam ler a carta, entender o conteúdo; e começar a implementá-lo.


Obviamente, não era eficiente; e interferia negativamente em inúmeros outros processos.

Devido à comunicação deficitária, muitos professores eram obrigados a exercer funções fora da sala de aula - como supervisionar a merenda-, para evitar que o sistema simplesmente parasse de funcionar.


Hoje, em Haryana, todos os diretores e professores participam de grupos de WhatsApp e, quando é preciso passar uma informação, ela simplesmente é postada. Assim, de imediato, é possível saber quem recebeu a mensagem, quem a leu; e caso alguma determinação não tenha sido compreendida, não só a Secretaria responde, como inúmeros professores de diferentes regiões do estado.



Não, em Hayrana - e pro futuro: não, em nenhum lugar


No contexto educacional, até mesmo mudanças radicais provocam resultados lentos. E quando se fala em mudança sistêmica - em larga escala -, eles demoram cerca de 5 a 7 anos a se manifestar.


Não, em Hayrana. As escolas do estado se tornaram objeto de estudo. Os professores voltaram seus focos às atividades educacionais; e foi provado que o nível de escolaridade não só parou de cair nessas escolas, como começou a subir.


Experimentos como este, na Índia, mostram o poder de tecnologias “simples” - como o WhatsApp - para tornar estruturas "inchadas" e ineficientes como entidades públicas, em autênticos agentes de transformação. Também, em liberar o poder criativo dos professores em direção às atividades que realmente geram valor ao aluno.


E não para 50, 100 ou 500 escolas. Mas para, no mínimo, 15 mil.


Escritórios

Nova Iorque

São Paulo

Belo Horizonte

Hamburgo

Soluções

Redes sociais

  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca Ícone LinkedIn

Fale conosco

© 2020 by EduSim